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'...Macaé, ano I, Nº 47 - 22 a 29 de dezembro de 2006
Leia "O COTONETE AZUL E A NOVA DEMOCRACIA", de José Milbs. Clique aqui
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Caro José Milbs :

Continuo a ler seus artigos cheios de vida sobre certos passados históricos. Sua inspiração de historiador sempre me impressionou.

Estou muito ligado no segundo romance que estou a escrever. Uma vez, tanto foi minha concentração num texto, que cheguei a esquecer meu próprio nome por uns dois minutos! Mesmo assim, ainda roubo tempo para pesquisar nos espaços d'O Rebate os bons assuntos que ali são escritos.

Estou organizando um capítulo do romance de combate: A Dominação do Terceiro-Mundo, para remeter-lhe logo mais para publicação.

Logo abaixo desta missiva, mando-lhe uma carta aberta de um sobrinho meu, para efeito de publicação em O Rebate. A meu sobrinho Agassiz Filho, pedi que colaborasse com os assuntos de alta cultura de seu jornal. Ele me prometeu que o faria.

Saiba que não se pode esquecer uma personalidade como você, que marca pela inteligência e pela energia de viver.

   

Com a estima de

   

Langstain Almeida

   

Pessoal:

Segue uma resposta ao Capitão Paulo Pinheiro sobre PInochet. O texto também está no site www.agassizfilho.com na seção opinião. Deixe comentários e peça a adesão dos seus amigos ao debate. Vamos fortalecer os valores democráticos.

Agassiz Filho


CARTA ABERTA AO CAPITÃO PAULO ROBERTO PINHEIRO


Confesso que fiquei bastante surpreendido com o conteúdo do seu texto, intitulado Pinochet x Fidel. O choque se deveu ao inesperado encontro com a frase que o encerra: "Ao Capitán-General Augusto Pinochet Ugarte, envio meus respeitos, por ter sido ele um feroz e obstinado inimigo do comunismo, contra o qual nós também lutamos e que desejamos ver banido onde quer que ainda exista."

Pinochet e Fidel Castro fazem parte de um imaginário político e ideológico que realmente polarizou o Ocidente na segunda metade do século XX. Contudo, os vivas proclamados pela imprensa, pelas universidades, por inúmeras instituições nacionais e internacionais em razão do falecimento de Pinochet se referem, em sua maioria, à morte simbólica das ditaduras e dos seus símbolos.

Com poucas exceções, no Brasil não há aspectos pessoais envolvidos nessa crítica; não se trata de nenhum problema com o homem - marido, pai ou avô - que foi Augusto Pinochet Ugarte, cuja vida privada é absolutamente sem importância para a história do século XX. As faltas cometidas pelos indivíduos falam do seu caráter, da sua personalidade e podem até redundar em severa punição criminal. Mas não se projetam no cenário político. Os vivas pela morte de Pinochet dizem respeito ao desaparecimento gradual dos símbolos do autoritarismo na América Latina.

Também quero recordar que as ideologias radicais estão em decadência. Não há mais espaço para a esquerda ou para a direita se o projeto de ambas não tiver bases verdadeiramente democráticas. Bobbio e Giddens chegam mesmo a dizer que elas não existem mais em suas versões clássicas. Nas sociedades do mundo global, deve imperar a busca do consenso; a negativa tendência militarista que surgiu após o 11 de Setembro deve ser combatida à exaustão por todos aqueles que acreditam na democracia. Nesse sentido, o surgimento de uma ditadura de esquerda seria tão difícil de justificar quanto o totalitarismo de direita. Quero ressaltar que não estou defendendo o pensamento único que caracteriza o nosso tempo. Os horizontes políticos do século XXI ainda estão por se definir, mas certamente devem - e precisam - assumir os postulados de uma democracia social.

Quanto à postura da Presidência da República chilena, quero lembrar que as exéquias de Pinochet têm um impacto diferente no Chile. O que para nós é apenas o símbolo de um passado negro - o totalitarismo latino-americano -, é causa de alguma - menor do que seu texto proclama - divisão na sociedade chilena. Gera ódio em grande parte do país; é causa de desestruturação social e encontro com as sombras da violência de Estado.

Além disso, é importante observar que as sociedades democráticas que surgiram nos últimos vinte anos - parece que a sociedade brasileira ainda é uma exceção à regra - optaram por soterrar os símbolos do passado autoritário, como ocorreu na Espanha, em Portugal, na Alemanha ou na Rússia.

Que Pinochet tenha todas as honras que sua família desejar lhe atribuir, pois cada um gosta do que e de quem achar mais conveniente. Porém, conferir honras de Chefe de Estado a Pinochet seria o mesmo que elogiar o totalitarismo, a tortura e a política de desaparecimento da oposição, o que não se identifica com os ideais democráticos da atualidade. Pinochet morre como o General Augusto Pinochet.

Por fim, gostaria de sublinhar que discordo completamente do seu ponto de vista sobre a ditadura no Chile. Acho que se trata de um grave equívoco na compreensão da história. É irrelevante que Pinochet tenha combatido uma ou outra tendência política. O que importa é o completo desprezo que o General chileno e outros ditadores sentiram por tudo aquilo que o ser humano representa; o que importa é sua dúbia posição política no governo de Allende: a traição do General em relação ao Presidente. Qualquer grupo político que se dedique a executar ou torturar as pessoas deve ser visto negativamente; merece todo a repulsa que um ser humano pode sentir. Nesse sentido, gostaria de engrossar o coro daqueles que pensam a simbólica morte de Pinochet como um alívio para a idéia contemporânea de democracia. E que as novas gerações não prestem atenção aos elogios que o seu texto fez à desprezível memória do ditador Augusto Pinochet.

Agassiz Filho é autor dos livros: Sociedade e Cultura em Evolução, mais Globalização e Identidade Cultural; e de quatro livros em parceria, estes publicados pela Editora Forense.

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