Fundado em 16 de abril de 1932

...Macaé, ano I, Nº 32 - 31 de agosto a 8 de setembro de 2006
Não perca o Caderno R. Cultura, Educação e Entretenimento. Exclusivo para O Rebate on Line
Colunistas
Adriano Benayon
Alberto Acosta
Almir da Silva Lima
Ana Cristina Gama
Andrei Bastos
Angela Maria
Antonio R. Nóbrega
Carolina Oliveira
Ceci Juruá
Ciro Campelo
Cristina Vieira
Daniel Felipe Matos
Daniele Fernandes
Denise Barreto
Denise Calixto
Edson Monteiro
Francisco C. Arduim
Fabiana Madruga
Giulianna Medeiros
Guto Glória Sardinha
Isabella Maciel
José Carlos Bocardi
José Milbs
Langstain Almeida
Leandro Domingues
Letízia Borges
Lúcio Aguiar
Manoel Barbosa Filho
Marcel Silvano
Mariana Gama Soares
Marly Santiago
Milton Nunes Filho
Moctezuma Pinto
Monique Cruz
Patrick Francisco
Phydias Barbosa
Rui Nogueira
Vanessa Gonçalves
Vera Lúcia Gama

MARCELO RUBENS PAIVA FALA DE ENVELHECER, TAMBÉM, NO VELHO O REBATE DE 75 ANOS

Quando você envelhece, descobre que os amigos ranzinzas ficam mais
ciumentos, prática sem cura, e você pára de implicar com eles e se diverte.
Como pára de implicar com o blefador, que continua o mesmo, com o pão-duro,
que só piora, com o teimoso, que insiste mais em suas opiniões, mesmo se
estiverem furadas.

Descobre que o engraçado tem novas e mais sofisticadas tiradas, e que a
risada dele continua estremecendo o baralho.

Descobre que a ressaca do uísque é melhor do que a da pinga, que prosecco e
champanhe são só para brindar, que o vinho tinto argentino melhora a cada
safra. Descobre que a comida deve vir com pouco sal e a salada, com muito
azeite.

Descobre que tomate e maçã fazem bem e embutidos, mal.

Que queijos magros são mais aconselháveis do que aquele brie ou emental.

Descobre que em inauguração de restaurante não se come, e que, em lançamento
de livro, o vinho branco é alemão.

Descobre que aquela mulher por quem você foi apaixonado continua apaixonante
e o deixa sem graça toda vez que seus olhares se cruzam. E, mesmo que ela
tenha se casado com seu inimigo, com quem teve quatro filhos, continua
irresistível, e você fica sem graça ao lado dela como se ainda tivesse 16
anos, e ela sabe disso, e você não sabe por que enrolou tantas décadas nem
por que você não a seqüestrou logo quando se conheceram na escola.

Quando você envelhece, descobre que todas as suas ex merecem carinho, um
presente, um almoço, ou até um simples conselho, um telefonema eventual, um
e-mail, talvez, perguntando se está tudo bem, se precisa de ajuda. E
descobre que o fim da história mal resolvida não tem explicação. E se ela
perguntar um dia se você entendeu as decisões dela, você devolve: - "De
ter me largado? Não, e você, entendeu?" Sabe o que ela dirá? - "Também não".

Descobre que os filhos, quando crescem, não têm nada a ver com os pais nem
se encaixam nas projeções, comparações ou expectativas criadas na infância.
Descobre que, mesmo filiado a uma geração que quebrou tabus e diminuiu o gap
entre pais e filhos, os segundos nunca entenderão os primeiros, haverá um
conflito que parece ser a força motriz das relações: o novo nega o antigo, o
dominante perde espaço, o gene é aprimorado.

Você descobre que a moda da sua adolescência volta. Com outros pingentes e
significados.

A roupa não vem com a simbologia contestatória ou alienante, nem com a mesma
trilha musical ou discussões existenciais. A bata que você usou no passado
vira moda novamente, mas não se cantam as mesmas músicas, nem se debatem os
mesmos dilemas. A roupa volta sem conteúdo ideológico.

Descobre que as modas seguem um princípio dialético que se repete. O beat
veio pra contestar o acomodado anterior. E sempre vem algo pra conservar. O
hippie veio pra contestar, o disco veio pra acomodar, o punk veio pra
contestar, o yuppie veio pra acomodar, o dark, pra contestar, o new wave,
pra acomodar, o grunge, pra contestar, o clubber, pra acomodar, o britpop, contestar, o emo, acomodar.

Mas, de repente, ao envelhecer, você descobre que tais conceitos são
relativos, como tudo, que o cara da discoteca queria dançar, como o cara da
onda new wave e clubber, que há contestação no ato de pular e dançar com
roupas coloridas em momentos obscuros, e há acomodação no paz e amor do
hippie, que produziu o pseudo-acomodado punk niilista e autodestrutivo.

Quando você envelhece, lê cada vez menos matérias que falam de saúde ou
milagres da medicina.

Porque você sabe que já afirmaram que café faz mal, e já afirmaram depois
que faz bem, o mesmo com o sal, o mesmo com o vinho, já aconselharam comer
uma castanha-do-pará por dia e já desaconselharam, o mesmo com a pílula de
alho, complexos vitamínicos, aspirina, Ginkgo biloba, até açaí.

Depois de ser banida de todas as listas de dietas aconselháveis, agora dizem
que carne vermelha faz bem. Que vitamina C não cura gripe, todos sabem, mas
todos continuam tomando e apostando nela.

Se você está nos entas, já deve ter parado de fumar, trocou a Coca pela água
com gás, e sabe que está na hora de aprender para que servem alguns botões
do DVD ou comandos do celular, e sabe que está na hora de começar a ler
manuais de aparelhos que estão cada vez mais sofisticados. Ler com óculos de
leitura, óbvio.

Você sabe que envelheceu quando confunde giga com mega, ainda diz
liquidação, em vez de sale, não sabe se o trema foi abolido, usa ASA e não
pixel, descobre que as letras das bulas ou dos rótulos são em outra língua e
ilegíveis, e que ler cardápio à luz de velas é desesperador.

Lamenta que o Brasil de fato não tem jeito, não cresce, é resistente a
mudanças, é conservador, evita discutir temas como aborto, eutanásia,
descriminalização da maconha, união homossexual, tem dificuldades em se
enquadrar no time de países progressistas, e que a desigualdade só aumenta,
a corrupção, idem, as favelas, idem, sabe que antes da Copa do Mundo tem
aquela barulheira ufanista, e que se o Brasil perde vão procurar um culpado
e terá até CPI, sabe que brasileiro não sabe perder no futebol, que
continuarão a invadir gramados, e nunca ninguém será preso, que muitos
camelôs venderão contrabando ou falsificados, que na apuração do carnaval
vai rolar briga e protestos, na novela alguém será assassinado, outro
descobrirá que não é filho de quem pensa que é, que um teminha polêmico,
tipo casal do mesmo sexo se beijando, será debatido por colunistas e
reprovado por religiosos.

A vantagem de envelhecer? Retirar da vida expectativas que só a tornam mais
complicada e descobrir que no fundo ela é também engraçada.

(Marcelo Rubens Paiva - crônica publicada originalmente no Jornal " O Estado de São Paulo" no dia 29/07/2006)

Configuração mínima: 800x600. Recomendamos o Mozilla Firefox. Clique aqui para baixar a versão 1.5
Criação e manutenção Rose Nogueira