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O novo paradigma: a guerra infinita
Leonardo Boff
Assistimos impotentes à tribulação da desolação do sem número de vítimas
inocentes, de milhares de refugiados e da irracional destruição de toda a
infra-estrutura de um país que acaba de se reconstruir da guerra anterior.
Um mundo assim só pode nos levar à dessocialização e à guerra sem fim.
O sociólogo frances Alain Tourraine, que muito ama o Brasil e que adotou a
America Latina como a pátria de seu coração, sustenta em seu recente livro
"Um novo paradigma: para entender o mundo de hoje" (Vozes 2006) uma tese
intrigante que nos permite entender, de certa forma, a violência, na
verdade, a guerra terrorista que está ocorrendo entre palestinos e
israelenses no Líbano.
A tese que propõe é que depois da queda do muro de Berlim e dos atentados
de 11 de setembro de 2001 começou rapidamente uma desintegração das
sociedades, dominadas pelo medo e impotentes diante do terrorismo.
Estaríamos assistindo a passagem da lógica da sociedade para a lógica da
guerra. A potência hegemônica, os EUA, decidiu resolver os problemas não
mais por via diplomática e pelo diálogo mas pela intervenção e pela guerra
levada, se preciso for, a qualquer parte do mundo.
Essa estratégia possui sua lógica. Inscreve-se dentro da atual dinâmica da
globalização econômico-financeira. Esta não quer saber de qualquer controle
ou regulação social e política. Exige campo aberto para fazer a guerra dos
mercados. Separou totalmente economia de sociedade, vê os estados-nações
como entraves, procura reduzir o estado, difamar a classe política e passar
por cima de organismos de representação mundial como a ONU. Esta dissolução
das fronteiras acarretou a fragmentação daquilo que constitui a sociedade.
Pior ainda. Invalidou a base política e ética para o sonho de uma sociedade
mundial, tão querida pelos altermundialistas, que cuidasse dos interesses
coletivos da humanidade como um todo e que tivesse um minimo de poder
central para intervir nos conflitos e dinamizar os mecanismos da
convivência, da paz e da preservação da vida.
Esta desocialização é consequência da globalização econômico-financeira que
encarna o capitalismo mais extremado com a cultura que o acompanha. Esta
implica a segmentação da realidade, com a perda da visão do todo, a
exacerbação da competitividade em detrimento da cooperação necessária, o
império das grandes comportações privadas com pouquíssimo senso de
responsabilidade sócio-ambiental e a exaltação do indivíduo alheio ao bem
comum.
O mundo está em franco retrocesso. A atual sociedade não se explica mais,
como queria a sociologia clássica, por fatores sociais, mas por forças
impessoais e não sociais como o medo coletivo, o fundamentalismo, o
terrorismo, a balcanização de vastas regiões da Terra e as guerras cada vez
mais terroristas por vitimarem populações civis.
Este cenário mundial dramático explica por que nenhuma instância política
mundial tem capacidade reconhecida e força moral suficiente para pôr fim ao
conflito palestinense-israelense que está transformando o Líbano numa
ruína. Assistimos impotentes a tribulação da desolação do sem número de
vítimas inocentes, de milhares de refugiados e da irracional destruição de
toda a infra-estrutura de um país que acaba de se reconstruir da guerra
anterior. Isso é terrorismo.
Se, impotentes, não sabemos o que fazer, procuremos pelo menos entender a
lógica desta violência. Ela é fruto de um tipo de mundo que, nas últimas
décadas, decidimos constuir baseado na pura exploração dos recursos da
Terra, na produção e no consumo ilimitados, na falta de diálogo, tolerância
e respeito pelas diferenças. Um mundo assim só pode nos levar à
desocialização e à guerra sem fim.
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