Fernando Bicudo
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Carta Aberta de Niéde Guidon aos Cientistas e Homens do Futuro Caro colega do futuro,
Você está quase no final de um século que vi nascer. No exercício de minha
profissão, encontrei indícios, vestígios, e propus hipóteses sobre como
vivia o Homem do passado, como usava suas ferramentas, como preparava suas
armas.
Meu caro colega, mesmo não sabendo como você é - talvez uma máquina
inteligente -, escrevo-lhe como se estivesse dirigindo-me a um Homem. E
escrevo-lhe com a emoção de um Homem. Um Homem desse início de século que
nos abriga. Caso encontre dificuldade em entender-me, tenho certeza de que
poderá recorrer a sofisticados dicionários, a sofisticados programas para
computador, que lhe permitirão descobrir o sentido exato das minhas
palavras.
No início, todos os Homens viviam como caçadores-coletores. Para adquirir
conhecimento e conviver com as outras espécies da natureza, para sobreviver
com os parcos recursos biológicos que tinham, esses Homens necessitavam de
grande coesão social. O saber era passado dos adultos para os jovens,
igualmente. Sabiam que não podiam ter proles numerosas porque, ao contrário
dos outros animais, o filhote humano levava anos para aprender e ser capaz
de sobreviver só. Todos executavam todas as tarefas, todos eram iguais. Os
chefes comandavam com base em sua força física, que, como todos os recursos
biológicos, nasce, atinge seu apogeu e definha. Assim, um chefe exercia seu
poder durante um tempo limitado, até que um outro membro da tribo, mais
jovem, mais forte, o suplantava.
Os Homens temiam a natureza, reconheciam seu poder, um poder que, para
eles, emanava de entidades sobrenaturais. E essas entidades sobrenaturais
comandavam as águas, os ventos, o fogo, os astros. Seres que viviam por sua
conta e cuja passagem pela vida dos Homens era eventual. Os espíritos!
Em um momento dado de nossa história, alguém imaginou como fazer para
garantir um poder mais duradouro, que não dependesse unicamente dos
recursos biológicos. Como a morte é um fenômeno que assusta a todos os
animais, esse alguém imaginou uma história que tratava do além, da
existência de seres sobrenaturais, da boa vontade dos quais dependeria a
vida e o destino pós-morte de todos os Homens. Os Deuses!
Nesse momento começaram a se diferenciar os Homens. Aqueles que somente
sabiam conviver com a natureza, que dependiam de sua força para sobreviver,
e aqueles que tratavam com os deuses: os sacerdotes. Os últimos,
constituíam uma casta privilegiada, com poder assegurado. Com o poder
assegurado, não tinham mais que enfrentar a vida difícil do dia-a-dia, pois
recebiam dádivas daqueles que não tinham o poder de tratar com as
divindades.
Mas como os Deuses eram muitos, havia a possibilidade de tratar com seus
intermediários, e o poder se diluía. Como concentrá-lo, então? Como colocar
mais elementos de uma família, de um clã, no exercício do poder?
Novamente um gênio inventou outra forma de poder. Os Deuses escolhiam e
davam a um homem o poder para que ele fosse o chefe de todo seu grupo. E
esse privilégio passava de pai a filho. Nasceram, assim, as dinastias. O
poder concentrava-se cada vez mais.
As sociedades começaram a crescer além dos limites permitidos pela
natureza, pois, para que alguns pudessem viver sem fazer nada, além de
falar com os Deuses e dar ordens a seus súditos, para que pudessem viver em
palácios, mergulhados em rendas e comendo iguarias, deveriam existir
milhões de escravos, trabalhando para ter direito ao pão, à água e à
procriação, engendrando muitos futuros escravos. Templos, túmulos
monumentais e palácios, sempre exigiram multidões de escravos para serem
construídos e mantidos.
Com o aparecimento da escrita, das castas, o saber ficou concentrado
naqueles que dominavam. Não era mais todos ensinando a todos. Assim,
começaram a aparecer as classes cultivadas e os ignorantes. Sempre poucos
letrados para muitos ignaros.
E depois? Depois, um novo passo foi dado para concentrar e tornar o poder
definitivamente esmagador. Um espírito genial criou o Deus único, engendrou
o monoteísmo. Concentrou-se o poder em um homem que representava Deus,
infalível, cuja palavra deveria ser seguida sem discussões. Em torno dele
toda uma corte, formando uma estrutura triangular, sempre poucos no alto,
muitos na base. O judaísmo, o catolicismo, o islamismo, o protestantismo.
Cada grupo inventando seu próprio Deus, único, o certo, o bom, o que devia
ser adorado. Quem nele não acreditasse, deveria ser exterminado.
Poder religioso e seu derivado, o poder civil, nunca se dissociaram. Juntos
escreveram páginas com o sangue de todos os que se rebelavam e poderiam
representar a menor ameaça a esse estado de coisas.
Assim, durante milênios, a sociedade humana acostumou-se com as guerras,
com o extermínio dos que pensavam diferente, dos que não queriam se
submeter e ser escravos.
Guerras pelo domínio das terras e dos povos, das riquezas do mundo. Guerras
e perseguições contra os que negavam ou duvidavam do poder divino.
Os que falavam da bondade de Deus, de sua misericórdia, eram os que
torturavam, mantinham em masmorras e matavam os que ousavam duvidar de sua
palavra. Mesmo aqueles que não duvidavam, mas que representavam uma presa
interessante, pela sua fortuna, por sua mulher, por suas terras, também
eram perseguidos, eliminados.
E como o Poder nunca se sacia, quando mais baixo encontrava-se o Homem na
escala social, mais filhos deveria produzir. Sempre com a idéia de que,
para sobreviver, necessitava de muitas mãos, mãos que o ajudariam a
trabalhar e, mais e mais, agradar ao Poder.
Assim vimos Homens torturando, matando, chacinando outros Homens. Vimos a
Idade Média, a Inquisição. A invasão das Américas e o aniquilamento de
milhões de seres humanos que compunham os primeiros povos, que partilhavam
as terras com todas as outras espécies, que viam o verde das matas e
escutavam a algaravia dos bichos.
Em um dado momento, alguém se lembrou de um tipo de governo que havia
existido em um pequeno país, criador de uma civilização, onde a cultura era
difundida e o povo tinha suas tradições, a democracia. Imediatamente, esse
alguém pensou nas possibilidades que ela abriria se fosse implantada em
países com elites cultas e massas incultas. O povo acreditou que estava
elegendo seus representantes. E, assim, o Poder, ao invés de ter que
contentar milhões, teve unicamente de enriquecer, dar empregos e acanalhar
os representantes desses milhões, algumas centenas de cidadãos que passaram
a integrar um novo Poder. Assim nasceram os políticos, prometendo uma vida
maravilhosa para os que nele votassem, mas pedindo que esquecessem o que
haviam escrito ou prometido no instante em que se viram investidos de
Poder.
Vimos agir o nazismo, o fascismo, o comunismo. Homens sendo assassinados em
câmaras de gás, fuzilados, torturados. Hiroshima e Nagasaki. Os brancos
rejeitando os negros e os amarelos, os negros rejeitando os brancos e os
amarelos, os amarelos rejeitando brancos e negros. Os capitalistas. As
classes trabalhadoras. E cada vez mais os donos do Poder aprimoravam-se. A
transmissão do saber, que havia sido concentrada, que havia passado da
Igreja para a Universidade, formando jovens capazes de pensar e protestar,
tinha de ser demolida. E a Universidade foi destruída. Ao invés do saber se
ofereciam diplomas.
O Poder concentrou-se na tecnologia. Os tecnocratas, sem pensar em algo
mais sofisticado, menos simplista, ativeram-se apenas às operações
necessárias para conseguir que uma máquina executasse uma tarefa
específica, que o computador resolvesse determinado problema. Tudo
orquestrado para que a necessidade de consumo aumentasse a cada instante, e
mais impostos fossem pagos. Impostos que garantiriam educação para seus
filhos, saúde para a família, estradas, cidades limpas e seguras, o direito
ao lazer. E o Poder recebia os impostos e decidia o que fazer com eles,
mudando seus destinos, oferecendo escola de péssimo nível, saúde que
significava morte mais rápida, bandidos ameaçando a todos. O Poder podia
solicitar empréstimos, aceitar juros extorsivos, quando precisava de
dinheiro para uma fantasia qualquer, como construir uma capital nova! Mas
quem pagava os empréstimos, mais os juros, era o povo, cujos filhos já
nasciam com uma dívida enorme.
O rosário de sandices continuou: abriram a possibilidade para que o Homem
fosse diferente dos outros animais de sua família. O Homem poderia viver
mais do que seus primos macacos. Que felicidade... Para viver mais,
trabalharia mais, e manteria todo o sistema necessário, com isso
continuaria arrastando seus males pelo mundo.
Num mundo onde só existia espaço para a arrogância, as outras espécies
passaram a existir apenas em função das necessidades do Homem. Os animais
eram torturados, viviam em pânico, aterrorizados.
Por quê? O porquê de tanta atrocidade? É isso que está me perguntando, meu
caro colega do futuro?
Apenas para produzir mais e para nutrir a espécie que se fez dominante. E
não parou por aí, não: milhares e milhares de espécies vegetais foram
destruídas, dando lugar apenas àquelas que interessavam ao Homem. Animais e
plantas foram modificados geneticamente para aumentar a produtividade.
Isso, apesar de continuarem pregando que Deus havia criado o mundo, e tudo
o que existia sobre a face da Terra. O Homem corrigia e melhorava o que
Deus havia feito!
Para culminar, decidiram que nem mesmo os filhos poderiam substituir os
pais. O amor ao Poder era tal que criaram a técnica da clonagem, e cada um
foi substituído por si mesmo. A reprodução e os riscos de ver nascer um
filho que não fosse digno de seu patrimônio ficou relegada aos que não
tinham meios para se auto-reproduzir.
Destruíram, meu caro colega, a beleza do mundo, o prazer da vida. As
primeiras sociedades humanas, pouco numerosas, eram solidárias. A
generosidade da natureza podia manter todos saudáveis. As sociedades
humanas no início desse nosso século são compostas por bilhões de pessoas.
Sociedades, na sua grande maioria, doentes, solitárias. A natureza foi
destruída. Todo o alimento tem de ser comprado. A água tem de ser comprada.
Os dons da natureza, hoje, têm seus donos: o Poder. O Poder, sob suas
inúmeras formas. A competição é a regra da vida, e todos os Homens, mesmo
sem ter consciência, odeiam seus semelhantes, potenciais competidores. E a
eles atribuem a culpa de não poderem viver melhor.
E o que aconteceu com o Homem? É isso que está querendo saber agora, meu
caro colega? Infelizmente, não poderei lhe responder a essa pergunta. Parti
há muito. Mas tenho algumas curiosidades a respeito do seu tempo. Me diga:
o Sol que o aquece agora é o mesmo que vejo brilhar lá fora, ou ele foi
substituído por algo artificial? As geleiras dos Pólos degelaram e
invadiram territórios hoje ocupados por populações costeiras? O que restou
da camada de ozônio? Ela ainda existe? E a Floresta Amazônica, o que foi
feito dela? Esvaiu-se em fogo e fumaça? A caatinga sobreviveu? Ou você
nunca ouviu falar sobre ela? Você já ouviu falar em macaco-prego? Já ouviu
falar em veados-galheiros, vaga-lumes, bem-te-vis? Em tamanduás? Em tatus,
araras azuis e vermelhas, sapos, morcegos, onças, cobras, beija-flores,
sabiás? Já conjugou o verbo sonhar, sorrir, acreditar? E as mentes?
Conseguiram eles, por fim, dominar todas as mentes?
Nesse instante, caro colega do futuro, estendo o meu olhar pelo vastidão do
que ainda é um pedaço do paraíso - um pedaço do paraíso chamado Serra da
Capivara -, que Poderes nada ocultos insistem em ignorar, em destruir, e
entrego-lhe este texto para que continue a contar como prosseguiu a nossa
história, a história de todos nós. Uma história que, por séculos e séculos,
tem sido de amargura, aflição e terror.
(Assessoria de comunicação para a Fundação Museu do Homem Americano -
FUMDHAM) |