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...Macaé, ano I, Nº 27 - 28 de julho a 4 de agosto de 2006
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Eu não tenho mais medo de Arraia!!!

Marfiza

Eu nasci no mar... onde existe um dos maiores rios que há, o Paraná. Os índios de lá, impressionados com sua grandiosidade o chamaram de mar... (paraná, na língua tupi). Porém as correntezas da pobreza me levaram pra muito longe de lá e pra onde eu fui levada, as águas reinam absolutas... foi lá que eu aprendi a ter fé.

Ainda menina, eu ia nadar escondida e eram muitos os perigos das águas escuras e profundas dos rios de lá, mas o que mais me aterrorizava eram os bichos, e de todos eles, as Arraias. Peixes-boi, Botos, Ratazanas, Peixes-elétricos, Cobras d-água, e as temidas Arraias. "... a dor de uma ferroada dura 24 horas..." (a voz da minha mãe sempre ecoava). Mas eu precisava da água, tinha fé, e me arriscava. Um dia a corrente me levou e no caminho uma ponte me salvou. Nunca mais me senti à vontade pra nadar por lá...

Qualquer nome que os índios de cá tenham dado aos tantos rios que existem na Amazônia, tinha sempre paraná (mar) no nome de tão grandes que são... Guaporé, Ique, Ji-Paraná, Madeira, Mamoré, Paraná-Pixuna, Roosevelt, Jamari, Jaru, Juruá...  Não quiz mais nadar... e ainda tinha medo de Arraia e mais medo ainda de morrer e minha mãe não se perdoar... Mães são assim, não têm culpa de nada, nos alertam e orientam sempre, mas sempre se consomem.

Mas eu sou da água e não dava pra não me molhar, então adotei as chuvas, que lá na região amazônica são constantes, e na época delas, diárias e torrenciais. Foi quando veio outro vento, inda mais forte e me jogou nesse rio de cá, da selva rural pra urbana... e me puz a remar, sem linha de chegada, sem bandeirada, sem destino nem nada. Agora com as águas daqui tão turvas, sinto a corrente me empurrando a cruzar o continente e desejo que minha mãe que é tão sábia, saiba me orientar. Nestes dias em que não temos salva-vidas, torço pra que ela me diga pra ir fundo, ou simplesmente, não mergulhar. Tantas lágrimas da dor de tantas perdas, frustrações, saudades dos dias em que eu sonhava que as canções poderiam mudar o mundo...e mudam!  Mas em velocidade tão menor, que não sei se escaparemos do dilúvio que se anuncia. São tantos os tsunamis e katrinas todo dia, que meu coração aflito, pede um pouco de calmaria. São tantos os ratos que ao invés de roupas, roem sonhos, pessoas a tomarem veneno em cubículos, copos de "pé-sujo", em mesas de bar, em esquinas, nos becos, nas vielas, anestesiando seus medos, suas frustrações, seus desejos, seus anseios. Meninos-boto, em seus poucos pêlos, vendendo sua juventude, seu destemor, seus sonhos, anseios, anestesiando seus medos, nos becos, nas vielas,... meninas-boto, inda nem têm seios... e feito cadelas, uivando, latindo, requebrando... nos bailes funk, nos bairros, nas favelas. E nesse zoológico urbano, desses bichos todos soltos, eu temo menos as arraias, os peixes-boi, as cobras d-água, pois do que eu sei, a única certeza é a de que a dor de dois dias não é maior que a de agora.

Agradeço a minha mãe que me ensinou a temer águas turvas, bichos que machucam, ratos que roem sonhos, gente que vira bicho e a manter a fé na vida. Ela nem sabe, mas com sua voz de soprano, me ensinou também a cantar. Mas eu ainda tenho medo, tenho medo da morte! Da morte da fé na vida, nas pessoas, na música boa. Minha fé... tão bem plantada, agora regada só de lágrimas.

Relutante em aceitar, busco na minha mente "duty free" de intérprete, a lembrança de uma canção entre tantas que me transportam pra outro lugar, porque somente a música, minha bússola-passaporte, que me transporte, me leve pra um lugar, uma ilha, um cais, um porto, onde eu possa o medo ancorar. E então repetir um refrão de acalanto, um mantra, um canto, pra o medo ninar...

"...Eu sei dos perigos do mar
Eu sei dos perigos de amar
Eu não tenho mais medo de arraia
Eu nao tenho medo de nadar
Eu não tenho medo de nada...
Eu não tenho medo de arraia
Eu não tenho medo de nadar
Eu não tenho medo de nada...
Eu sei dos perigos de amar
Eu sei dos perigos do mar."

Take Care, M.


*Foto do meu amigo Hélder (banda BR 80, Jeep Clube Porto Velho), trilha ao Terceiro Tombo do Rio Preto.

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Criação e manutenção Rose Nogueira