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...Macaé, ano I, Nº 24 - 7 a 14 de julho de 2006
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O PAPEL POLÍTICO DO HIP HOP NA ATUALIDADE

Como representante legítimo do povo da periferia

Por *Johnson Sales.

O Hip Hop é uma das mais importantes manifestações culturais da atualidade, primeiro por ser autenticamente gerado na periferia, o que faz dele o mais legítimo instrumento de comunicação da juventude pobre. Também o mesmo se faz importante por conseguir elevar a auto-estima, canalizar a energia e força e materializar perspectivas para uma faixa da população esquecida por todos. O Hip Hop também consegue, como poucas expressões artísticas, romper as barreiras de classe e se fazer ouvir e praticar dos guetos e favelas às ruas artificiais dos shoppings. E em um País tão maltratado por produções artísticas alienantes e descompromissadas para com a realidade social da nação, termos uma musicalidade e uma cultura que aborda temas sociais e chama a juventude a um engajamento em questões sociais e humanitárias já é um grande diferencial.

Em Fortaleza desde o surgimento do Movimento Hip Hop com a Fundação do MH 2 O do Ceará em 1989 que o cenário cultural e político da cidade ganhou uma nova configuração. Pois pela primeira vez na história de Fortaleza a periferia passa a se expressar sem intermediários (nem os assistentes sociais dos governos e nem a classe média organizada nos partidos de esquerda representam mais os pobres que ganharam voz e linguagem próprias com o MH 2 Oce).

Dezesseis anos depois, várias tentativas de cooptação e muitos embates vividos, o Hip Hop segue sua trajetória de independência pelas mãos do agora nacionalizado MH 2 O do Brasil. Várias outras Organizações surgiram na cidade e muito ainda se tem por organizar e construir. Ainda não temos uma pauta unificada de reivindicação do Movimento Hip Hop para o Poder Público em nome da Juventude da Periferia. Apesar do Movimento Hip Hop ter estado lado a lado em todas as lutas sociais e políticas da última década com o grupo que hoje dirige a Prefeitura de Fortaleza e até com muitos dos que hoje governam o País, ainda não temos o espaço necessário para propor políticas públicas, ainda não nos encontramos representados e reconhecidos nestas gestões. Embora boas iniciativas já tenham acontecido (bons exemplos são a Secretaria de Desenvolvimento Econômico-SDE e a Coordenadoria de Juventude da Prefeitura de Fortaleza e a Secretaria de Esporte e Juventude e Secretaria de Inclusão e Mobilização Social do Governo do Estado do Ceará, além do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério da Cultura do Governo Federal) e uma certa boa vontade de vez em quando se mostre, não conseguimos ainda ser ouvidos quanto Movimento Social, Cultural e de Juventude da forma que necessitamos e merecemos, já que todas essas relações são pontuais e o que buscamos é um debate conceitual e estratégico sobre como e onde atuar para e com a juventude da periferia. Temos trabalhado bastante pela unificação do Movimento em Fortaleza, o Fórum Cearense de Hip Hop (FCH 2 ) que congrega a grande maioria das Organizações atuantes no estado, é um bom exemplo. O FCH 2 tem discutido o destino do Movimento no estado e na capital. Hoje, as duas maiores Organizações de Hip Hop de Fortaleza, mantém ONG's que realizam projetos institucionais e executam políticas públicas e polarizam o cenário local. Mas apesar desses esforços e avanços, muitos dos partidos e agrupamentos políticos e até os governos ainda teimam em relacionar-se conosco pelo prisma da cooptação e ou da sectarização partidária, sem perceber que somos algo novo, representamos uma nova classe social: O Lumpesinato. E que temos nossas próprias formas de organização que se diferem de seus partidos e sindicatos, apesar de não sermos antagônicos a eles e sim complementares e aliados preferenciais.

Muitos são os artistas oriundos das periferias de Fortaleza que contribuem com sua arte para projetos sociais, shows, oficinas e para o combate a autodestruição da juventude. Nestes dezesseis anos do Hip Hop Fortalezense, tiramos mais jovens das drogas e da criminalidade do que todos os órgãos governamentais juntos, e com um valor agregado indiscutível: Tiramos jovens da exclusão, direto para a linha de frente do Movimento Social e da participação política e cidadã em nossa cidade, estado e País.

Porém, se faz necessário mais organização, uma maior articulação entre os vários grupos do movimento local e um grande compromisso do Hip Hop para com a representação política e cultural da periferia. Devemos exigir do poder público políticas voltadas para a periferia e o tratamento para com o Movimento Hip Hop na condição de força política independente e autônoma, de acordo com a legitimidade conquistada junto às várias comunidades de nosso município. E em pleno momento eleitoral, de forma alguma podemos ou devemos aceitar fazer parte de qualquer "leilão" ou "barganha" político-eleitoral para executarmos ou acessarmos recursos e políticas públicas. Devemos sim, discutir programas de governo, inserir nestes programas nossas demandas e interesses e orientar a juventude nas suas opções eleitorais, além de nos preparar para ampliar nosso controle social sobre o governo, os programas e os projetos executados com recursos públicos em nosso município, estado e no Brasil. O Hip Hop deve impor-se como referência ética e legitimidade política para a juventude nestes tempos de tanta incoerência, oportunismo e ausência de ética no meio político e social da nação.

Diante de tudo isso, chega o momento de falarmos de igual para igual com as demais forças sociais de nossa cidade e lutarmos por voz e espaço no cenário político a fim de assegurarmos conquistas reais e concretas para a periferia e conquistar o já tardio reconhecimento do Movimento Hip Hop como o mais importante e legítimo porta-voz da periferia e de seus anseios sociais na atualidade. E cabe à sociedade colaborar, não nos atrapalhando, nos ouvindo mais, não tentando nos impedir de nos inserirmos nas discussões e debates realmente relevantes para nossa cidade, estado e País, o resto nós sabemos e fazemos por nós mesmos.


*Johnson Sales (O Poeta Urbano) é Coordenador Institucional do Movimento Hip Hop Organizado do Brasil (MH 2 O do Brasil), Secretário Geral do Parque de Inovação Social Terra da Sabedoria e Fellow da rede Mundial Ashoka Empreendedores Sociais.
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