Fundado em 16 de abril de 1932

...Ano I Nº 10 - 1 a 8 de abril de 2006

Antes da chegada dos computadores e a história das nossas oficinas...

José Milbs

O trabalho da imprensa era totalmente artesanal neste dourado tempo de sol e lua em uma Cidade ainda Pura. O REBATE e a GAZETA DE MACAÉ faziam a história que era contada por dezenas de articulistas, poetas e focas que davam o toque jornalístico como amadores e fazedores de opiniões mais direta.

Nas oficinas os gráficos manipulavam caixas grande de tipos de todos os formatos que eram apanhados um a um e colocados nos compunidores e depois de amarrados iam para as bolandeiras para uma prova revisional antes de ser levada, pesada e com carinho, para a grande impressora tocada a mão ou por um motor velho e lento.

Nestas oficinas se formavam os autodidatas . Eram jovens, pinçados em comunidades e ruas, que sabiam que a profissão era uma maneira fácil e rápida de estar perto dos grandes valores da intelectualidade neste final de século. Assim o REBATE fez a cabeça de dezenas de gráficos e aprendizes que pelas suas oficinas passaram . Meninos que chegavam cedinho, papeavam com os articulistas e iam se adapatando a nova vida no mundo da imprensa.

Lembro, e do esquecimento peço desculpas, de alguns destes pilares da vida jornalística e gráfica, de alguns deste aprendizes: Enilton, Elias, Alfredo Ávila Filho, o bom Surdinho, Roberto, um dos maiores compositores que iniciou-se como menino nas oficinas do " O REBATE. Jorge Babá, Kiko, Josias Pires, o filósofo, Pedro Paulo Almeida e Chico, o meigo Caturra, que sempre gostou de uma ramazinha, Ivair de Souza, Ciri, , Sapo, Eulálio, Bidoda e Izaac que formavam o melhor de nossas inteligências no ramo.

David , Acílio, Argeu, Amildes, Aramis, e Odalcyr Motta que com suas experiências no trato com as letras formaram os suportes deste mundo belo que é uma oficina de jornal com seus cheiros de chumbo, tinta e papel.

Odalcy Motta , " Lorinho " , já tinha experiências no mundo gráfico. Desde menino era visto com seu olhar esverdeado e cabelos encaracolados com 12 anos no balcão da livraria " O REBATE " . Ele me afirmava rindo que era parente longe dos Mota Coqueiro. Ceil e Ilce , seus irmãos não negam nem afirmam.Olhavam m de banda, num piscar concordativo...

Era uma época onde o conhecimento vinha, assim, como a brisa do sol. Entrava sem que a gente pedisse ou quisesse. Era um conhecimento que penetrava na cabeça e fluía para os dedos. Foi assim que nasceram o Poeta Marquesinho, o escritor Newton Carlos o Amarelinho do JB, Eraldo e Nelson Mussi, Alfenbake Olive, Milton Madureira, Miguel Ângelo Santos e o pai de Newton Carvalho.

Eles foram forjados nas oficinas e dela apreendiam, nas composições noturnas, o que não se ensinava nas ruas.

As oficinas de " O REBATE " em Macaé, " A NOTÍCIA " em Campos de Hervê Salgado, do " CORREIO DE CAMPOS " do jornalista Waldemar, criavam meninos auto-didatas que iam sendo aproveitados em colunas em seus respectivos exemplares.

Eram celeiros de gente que, nas silenciosas noites, formavam longas filas de composições que seriam lidas nos fins de semana. Campos e Macaé tem suas raízes de histórias cimentada nestas figuras humanas que nunca são lembradas.

Depois, devagar, devagarzinho foi chegando as linotipos modelos 31. Eram o progresso no mundo gráfico. Primeiro em Campos no " MONITOR CAMPISTA " e muito tempo depois em Macaé no " O REBATE ".

Esta era da linotipo criava ciumeiras nos valores empoeirados de nossas oficinas. Não era para menos. Uma grande máquina, com chumbo quente e teclas faziam em horas o trabalho de uma dezena de compositores .

Querendo ou não a linotipo foi bem chegada e se podia fazer nela a rapidez de composições mais longas. Claudio Upiano Itagiba, redator de O REBATE nos anos 70, adorava o invento e nele viu seus artigos serem impressos e lidos. Ficava horas olhando as tecladas dos mestres na arte de linotipar.

A beleza da criatividade das composições dos compunidores cedeu lugar a frieza desta máquina quente.

Os contornos de letras, poeticamente criadas pelo mestre " Marquesinho " e pelo paginador Izaac não foram mais vistos e lidos. Passaram a fazer parte das velhas histórias de velhos gráficos. Mas. ficou com a gente a certeza de que seus trabalhos não foram em vão. Seus dedos forjaram a beleza da arte e do artezanato da imprensa Fluminense. Eles cimentaram a estrada dando passagem para as linotipos e estas para este computador que faz de tudo até corrige meus milhares de erros. Computador é o bicho, reconheço. No entanto não cria, não se arrepia, nem imagina o quanto foi feito para que ele reinasse neste século de cores e animações.

A vida é uma eterna sucessão de fatos. Sua acumulação forma o que chamam de caráter. O forjamento deste caráter dá a quem vive a certeza do conhecimento que nos legam nossos antepassados. Feliz me sinto em escrever estas memórias e poder citar os pilares do jornalismo de Macaé e sua gente. É como se estivesse com a missão de dizer as gerações do ano 2000 que a história da Imprensa Macaense não foi bem assim como se tenta contar.

Imprensa em Macaé não é acocoramento ao poder. Temos que deixar na história que gráfico não é este moleque de recado de patrão que vive as suas expensas e se fazendo de capitão - do - mato entregando companheiros, que cansado de noites mal dormidas "mussegam" nos banheiros e tiram uma soneca.

Gráfico é um grupo humano irmanados num pensamento de fraternidade e união. Autodidata, um revisor nativo que sabia rever textos de Upiano, de " Tonito " ou de Osmar Sardenberg com o mesmo carinho com que compunham seus próprios textos que eram espalhados em bolandeiras e pinçados um a um nos corpos 8 , l0 e l2 negritos...

A vibração que brotava de " Magrinho " , Luiz Carlos Oliveira, Elton, Luiz Cláudio, meu filho, e Emerson filho do " Magrinho " "ao verem o jornal na rua" não se media com as medidas materiais. Eram a medida dimensionada na Alma Criativa e fertilizada pelo amor.

Era a medida do próprio simbolismo do coração. A fita que dimensionava o espaço entre o coração e a alma, tinha o brilho que contaminava. Trazia o sabor do doce e o conteúdo do amor. Era lindo ver o sorriso de menino de dezenas destes pilares quando o jornal estava , ainda quente, saindo da impressora para ir para a rua. Eu, Cláudio Upiano, Izaac, Euzébio e Luiz Pinheiro cheirávamos a página. Era o nosso ópio. Era a certeza de uma obra que ia para a rua onde todos tinham dado a sua parte.

Jornal era assim Gráficos e gráficas eram assim, no final dos anos 60 . Se vocês querem saber mais perguntem a tantos quantos foram gráficos no final do Século que eles dirão muito mais e com maior conhecimento de causa.

Moisés de Barros lembra ainda do dia em que, numa das madrugadas frias de agosto " O REBATE " foi fechado. Dormiam entre resmas de papel e restos de páginas revisadas o nosso Cláudio Upiano . Neste dia, , eu, Euzébio, Aurelino, Izaac, Josias, Armando, Iz a ac , " Surdinho " e " Marquezinho " tínhamos saído de fininho para não despertar o amigo ido dormir .

O sono não deixou nosso mestre e filósofo ir amanhecer sob o sol do " Imperatriz " e o fez dormir. Rodaram o jornal depois de varias revisões dele. Quando já estávamos de volta a redação, e Lea Chapeta, nossa secretária, já colava os enderêços endereços para os assinantes, eis que Cláudio vê, sob um olhar pr´prio dos Lynces um erro, para ele gritante. Uma vírgula mal colocada ou um corpo 10 misturado no 12 novo e negrito. Era umas 9 horas de uma manha de sol ainda frio e ele, com sua caneta sem tampa, com seu cigarro amassado e seu cafezinho vindo do Silvic, ia revisando na mão, jornal por jornal tentando, nas minúcias de uma letra bem forjada, imitar a correção que só foi para a banca e para os assinantes depois que todos os exemplares tinham recebido sua emenda. À noite a gente ria muito quando alguém vinha reclamar das emendas feitas com caneta. Cláudio, sempre com seu humor aflorado dizia : " na que na França estava sendo usado esta técnica nos jornais, apreendidos com os alunos da Sorbonne " .

A mistura de inteligência com a malandragem das noites macaenses saiam da fal a do filosofo de uma maneira simples e amena.

História de oficinas e redações que se repetiam em todos estas paredes das memórias dos que habitavam este universo nos anos 60 e 70. Na Redação do JB não era difrente as longas e alegres brincadeiras. Abel Mathias Netto conta, dentre muitas, uma que aconteceu com um renomado redator.

Madrugada, sonolenta, dormia escorado na máquina de escrever o redator. Todos perceberam e, num rápido entendimento de olhares continuavam a bater as suas maquinas, enquanto um apagava as luzes. Bartô (Bartolomeu) roncava e, num sobressalto, grita apavorado, ao sentir-se acordado, toda a redação batendo nas maquinas, "Estou Cégo"... e, numa gargalhada, só acenderam a luz da Redação...

Uma Araponga de um quintal da rua do Imperador avisava que ia ter chuva na tarde meio morna deste Domingo. Acho que era no quintal do pai de Marquinho Brochado ou no de Antonio Alvarez Parada. Fato é que seu canto era um alerta.

A tarde os pingos já molhavam as beiradas das calçadas dando vida as sorrateiras plantas que seriam varridas pelos homens da prefeitura 2 a feira...

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