Entrevista
R: Bem Marcel, vamos começar apresentando você para a moçada. Qual é o seu nome completo?
M: Marcel Silvano da Silva Souza. Sou estudante de jornalismo e milito no movimento estudantil. Meu nome tem uma história interessante. De repente vale à pena contar essa história. No início da minha militância nos movimentos pastorais, num dos primeiros retiros que eu participei com o grupo jovem houve uma brincadeira de contar a hist dos nomes e ali acabou que minha irmã participava do encontro também e ela iniciou e eu tive que completar. Meus pais são do interior de Campos dos Goytacazes. Minha mãe do distrito de Goytacazes e meu pai de Tocos, 2 distritos usineiros (cana-de-açúcar); Campos não tem praia. Meu pai passa num concurso da Petrobrás, se casa e vem para Macaé e ficam maravilhados com o azul do mar e do céu daqui, diferente do mar do Farol de São Tomé, de águas barrentas, que é a praia usada pelos campistas.
Daí surge a inspiração para o meu nome: Marcel (mar-céu) que acaba sendo uma homenagem ao município aonde eu nasci. Essa história ficou famosa nas paróquias da região onde o Bispo Diocesano, D.Rafael, sempre que me vê conta essa história.
R: Você é estudante de comunicação social em Campos dos Goytacazes. Fale um pouco sobre a sua escolha e sua expectativa profissional.
M: A minha escolha profissional é um pouco conturbada pois até descobrir minha vocação eu dei bastantes voltas, me descobrindo enquanto ser humano, indivíduo e potencial profissional também. Fiz CEFET e isso dá uma visão muito tecnológica, mais exata das coisas e você acaba tendendo para as engenharias, física, matemática, etc e profissões ligadas a isso; tentei vestibular para engenharia elétrica, iniciei o curso de tecnólogo de petróleo e gás no CEFET Macaé mas a minha inserção nos movimentos sociais, meus questionamentos sobre o mundo baseado nas estatísticas e números frios acabaram por me levar para a área de ciências humanas. Iniciei ciências sociais na UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) sonhando em ser cientista político e entender o desenvolvimento da sociedade e as peculiaridades dos grupos sociais. Mas também essa área humana, acadêmica demais, ainda não era o que eu queria.E a comunicação social acaba me fascinando por que alia o aprofundamento acadêmico ao despertar da consciência popular.
R: Como isso é feito?
M: Estimulando a reflexão através da exposição da opinião, esclarecimento verdadeiro dos fatos através do jornalismo explicativo. Além do que o jornal é um instrumento acessível a várias camadas sociais, ao contrário dos meios acadêmicos, das cadeiras de doutores e mestres que são completamente elitizadas e excludentes, ainda.E também os meios de comunicação em geral, como a mídia alternativa, rádio comunitária, os fanzines entre outras formas de manifestação popular que democratizam a informação.É isso que eu imagino que seja a comunicação social e por isso escolhi essa carreira.
R: Você, com apenas 22 anos, tem uma invejável e admirável bagagem de participação em movimentos sociais. Conta pra gente um pouco da sua trajetória na Pastoral da Juventude, no Movimento Estudantil e na militância político-partidária.
M: Nessa questão eu gostaria de ser modesto e a expressão invejável e admirável eu deixo para figuras como Che Guevara, como Chico Mendes, como Vlad. Herzog e o próprio Presidente Lula, hoje uma referência de mobilização social. Mas faço um trabalho que me deixa muito feliz e que me preenche enquanto cristão, enquanto ser humano e socialista também e enquanto jovem, por que não? Minha atuação nos movimentos sociais passa por vários setores e tendências sociais sempre na base mesmo, como a Pastoral da Juventude da Igreja Católica. Milito também no movimento estudantil que no Brasil tem uma história fascinante contra a ditadura militar, pela redemocratização do País, pelo "impeachment" de um ex-presidente, e da formação da consciência crítica da juventude em geral através dos tempos.Primeiro eu falo dos movimentos depois eu falo das questões partidárias. Como eu atuo nos movimentos? No interior a mobilização social é muito complicada e trabalhar com jovens num quadro desses é muito mais difícil por vários motivos: pais que dependem de empregos das prefeituras, os professores e diretores que ainda tem (alguns) o espírito carrasco e coronelista, enfim atuamos firmemente na criação de grêmios, nas necessidades dos estudantes por uma educação de qualidade e consequentemente por um futuro melhor, um país melhor, estado e município melhores.Para continuar nessa luta e não desanimar a gente conta com a militância incansável de vários companheiros que compartilham das mesmas angústias, que sonham praticamente os mesmos sonhos, isso acaba contagiando e conquistando mais militantes para essa causa. E assim o movimento se estrutura. Naturalmente alguns lideram e outros dão corpo mas com qualidade e um teor de discussão com um todo orgânico e o mais importante, voluntariamente, na disposição e na garra.
R: Como e quando você iniciou esse trabalho, tanto na igreja como na escola, que acabou, a nosso ver, por influenciar na sua escolha profissional?
M: Talvez a primeira greve de servidores federais que enfrentei no CEFET como aluno, lógico, despertou em mim várias interrogações: por que vou ter que estudar nas férias? Por que meus amigos continuam com professores e têm mais qualidade no ensino pois estudam numa escola particular?E por que professores que me influenciam tanto lideram um movimento de greve? Tudo isso para um jovem de 13 anos, era algo muito novo e aparentemente muito prejudicial.Assim fui entender as contradições das políticas públicas, das prioridades dos governos e me envolvi mais substancialmente nessas causas tentando entendê-las e buscando formas de solucioná-las.Enfim, a partir daí eu queria "só" mudar o mundo.E como fazer isso? A partir de um grupo jovem que eu tinha acesso na paróquia de N.Sª da Glória, a igreja que freqüento.Isso porque eu achava que todos os jovens compartilhavam o mesmo sentimento de angústia e a mesma disposição por mudar a realidade.
R: E aí, onde entra a sua militância político- partidária nisso?
M: Desde que eu fui me envolvendo com os meus professores, em suas lutas por melhores salários e condições de trabalho, maior investimento na educação pública, enfim suas lutas, percebi que, na democracia, as mudanças passam necessariamente pelas discussões dos partidos políticos.E logicamente busquei um partido que defendesse as mesmas bandeiras e que lutasse as mesmas lutas.E aí surge o Partido dos Trabalhadores que é um marco para os movimentos sociais brasileiros depois da ditadura militar e se torna uma referencia para todos os brasileiros que desejam mudança, inclusive eu.E para não fugir à escrita da esquerda, recebi a ficha de filiação do PT de madrugada numa praça pública, numa carrocinha de hambúrguer próximo à minha casa (risos). Assim começa a militância político-partidária, com muita esperança e com muita realidade na vivência interna do partido, descobrindo que há diferença entre o mundo real e o sonho.O partido político foi fundamental nessa descoberta.
R: Você participou recentemente do 5º Encontro Nacional de Fé e Política em Vitória, no Espírito Santo. Sabemos que você acredita que religião e política são compatíveis. Explique pra nós como se dá essa compatibilização.
M: Primeiro é legal situar que a história ela serve para olharmos pra trás, analisarmos os erros e não repeti-los.Nisso a gente entende que a igreja enquanto instituição direcionada por homens teve erros grotescos e lamentáveis no desenrolar da história da humanidade e em muitos casos ainda erra. Mas Jesus Cristo é um grande exemplo de homem e de político.Talvez o maior exemplo.Ele questionou os governantes de então, Ele apresentou alternativas de organização da sociedade a partir do respeito do ser humano com o ser humano.Por isso foi perseguido, por buscar um mundo justo, igualitário.E morreu por esse ideal.A compatibilidade da fé com a política surge quando entendemos que a ideologia cristã, pela qual Jesus Cristo morreu, o tão falado Reino de Deus, nada mais é que esse modelo de sociedade.Então o Movimento Fé e Política traduz nossa disposição de lutar como Jesus lutou.Citando Hugo Chavez, quando perguntado se acreditava em Deus, ele foi claro ao dizer que Jesus foi um grande revolucionário, foi o primeiro socialista e morreu por isso enquanto Judas o primeiro capitalista porque entregou Jesus Cristo por algumas moedas.A gente acredita que a Igreja é um instrumento de transformação da sociedade.E se não for assim volta à idade média.
R: Como foi à participação de Macaé e região no encontro?
M: Eu faço parte do grupo de coordenação da Pastoral da Juventude - PJ do Vicariato Litoral. Isso compreende 7 cidades (Macaé, Rio das Ostras, Conceição de Macabú, Barra de São João, Carapebus, Quissaman e Casimiro de Abreu) e a gente trabalha a linha da formação e concientização dos jovens da igreja católica. O Encontro Nacional Fé e Política foi um momento importante. Por isso mobilizamos jovens de todos esses municípios e saímos em um ônibus, com aproximadamente 40 jovens, para o encontro em Vitória-ES que reuniu mais de 4000 pessoas. Lá vivemos um momento rico cultural e espiritualmente, onde os jovens da região puderam compartilhar de experiências e reflexões, de várias formas de organização social, manifestações de fé, com lideranças políticas de diversos partidos. Enfim um momento ecumênico e supra-partidário e acima de tudo evangelizador. Destacando a participação de figuras como Frei Betto, Plínio de Arruda Sampaio, D. Tomás Balduíno além da presença de inúmeros prefeitos, ministros, deputados, como Olívio Dutra, Chico Alencar, Inês Pandeló e outros de quase todos os estados do país.
R: Durante o Fest Verão 2006, evento organizado pela Prefeitura Municipal de Macaé, você liderou a organização de um evento paralelo que foi o Verão Solidário. O que foi este movimento e o que o inspirou a realizá-lo?
M: Esse foi o início de um outro tipo de militância. Nos organizamos enquanto movimento no município buscando espaço para a juventude macaense apresentar seu potencial cultural, artístico e de mobilização social. A necessidade desse espaço surgiu da constatação de que o jovem macaense tem uma única função nos eventos públicos: assistir aos shows dos grandes artistas, maneirar no álcool e fugir das confusões. Então nos mobilizamos para participar de uma outra forma, protagonizando a verdadeira festa. Tivemos 15 bandas macaenses, grupos de teatro, artes circenses e com a participação de mais de 1000 jovens na tenda montada na estrutura do Fest Verão. Aliado a isso arrecadamos alimentos e fizemos campanha de conscientização ambiental. Foi um evento alternativo cuja repercussão nos realizou e deixou muito felizes, pois o movimento foi noticiado em todos os jornais da região. Inclusive o Toni Garrido, do Cidade Negra que se apresentava, fez rasgados elogios à iniciativa e vestiu a camisa do projeto. E, mesmo como movimento independente fomos reconhecidos e recebemos a visita do Prefeito Municipal que prestigiou a tenda lotada e viu o resultado de nosso projeto. Um dos frutos do Verão Solidário é a legalização da nossa ONG Movimento Juventude que visa trabalhar desde as discussões de políticas públicas até estruturar os movimentos de base.
R: Marcel, como está o movimento cultural e político jovem em Macaé?
M: O movimento cultural tem avançado em passos lentos, sempre no cenário alternativo, por vários motivos. Vou citar o mais importante deles: a desmobilização da juventude e a falta de referência de uma organização que realmente represente a juventude que é o que estamos construindo com a ONG Movimento Juventude. E no movimento político de juventude sofremos o mesmo processo, a falta de referência. Acrescentando ainda o empenho dos poderes constituídos e das falsas lideranças em desmobilizar e esvaziar a juventude para manipulá-la. E o mais lamentável é que têm conseguido. Por isso nosso fôlego tem que ser redobrado.
R: Em suas andanças por uma significativa variedade de movimentos sociais, qual é a percepção dos jovens das diferentes classes sociais com as quais você convive a respeito das perspectivas profissionais em Macaé?
M: Todos sairemos de Macaé a não ser os que aceitarem o neo-escravismo do petróleo.
R: Você participa da direção de um partido político. O partido e as representações dele na Câmara Municipal de Macaé apóiam você na sua militância?
M: Não. Cada vez mais me convenço que os movimentos sociais, principalmente fora dos grandes centros, não são interessantes nem para os caciques partidários nem para os políticos profissionais. Isso enfraquece e desgasta as potenciais lideranças e o amadurecimento da sociedade no exercício da democracia plena. Na perspectiva do fortalecimento de um partido político popular, é lamentável abandonar a base pois ele acaba se tornando igual a todos os outros. E os mandatos, enquanto representação democrática, perdem sua função, se esvaziam e só atuam para si mesmos. Mas nosso movimento continua independente do apoio deles ou não.
R: A que você atribui a dificuldade do partido em vê-lo como uma liderança jovem na região Norte Fluminense? Um adendo: sabemos que você foi convidado para atuar no partido e no movimento estudantil em Campos dos Goytacazes, onde você estuda. Não parece uma contradição você ter mais prestigio e reconhecimento lá do que em Macaé?
M: (Risos). Acho que vocês estão sabendo demais.
R: Você e participantes do grupo que você lidera formularam propostas de políticas publicas para a juventude. Como está o andamento desse projeto?
M: Temos projetos. Acumulamos bastante discussão sobre políticas públicas para a juventude. Esperamos que quem possa implementar esteja disposto a dialogar, nos escutar e que reconheça a juventude não como problema mas como setor estratégico da sociedade.
As propostas estão aí, só não temos poder para implementá-las. Não somos governo e ele não apresenta as suas propostas. Mas estamos abertos ao diálogo.
R: O que você acredita ser necessário para estimular a participação da juventude nos movimentos sociais e particularmente na política?
M: Educação, conscientização e a democratização das mídias como O REBATE que está abrindo as portas e também alternativos como fanzines, jornais universitários, blogs de discussão. Por que não existe uma tv comunitária? Por que no Brasil meia dúzia de famílias tem a concessão de tvs e rádios e o controle da comunicação social que só serve aos seus próprios interesses e desmobilizam a juventude. Hoje é mais cômodo assistir Malhação ou os programas de fofoca de fim de tarde do que ir a uma assembléia ou ato de estudantes, uma palestra, um teatro, um filme que realmente abra os horizontes, enfim, a concorrência é muito grande e a juventude acaba sendo levada a paralisia. Penso que a juventude deixou adormecer seus ideais e angústias, buscando soluções individuais. Poucos pensam em soluções coletivas.
R: Pra você qual é o papel da educação na emancipação política e econômica da sua geração?
M: Existe o discurso de que a educação é a solução para todos os problemas da sociedade. Embora reconheça o papel da educação as questões são muito mais estruturais como a distribuição de terra, a partir de uma reforma agrária consistente, uma política de distribuição de renda, igualdade racial e outras.
Marcel Silvano é articulista do jornal O REBATE na coluna JOVEM.
Entrevista concedida em29/03/06 a Moctezuma Pinto e Profª Ana Maria Cançado, todos do jornal O REBATE. |