Vou te contar
Jô Lopes (Salvador )
Olhava o céu uma noite dessas. Olhava fixamente, como de costume. Algo me chamou atenção.
Sentia falta de alguma coisa.
Claro! Indaguei. Um telescópio!
Não. Não era isso, eu enxergo muito bem, e mesmo ofuscado pelas luzes da cidade grande, as estrelas lá compareciam.
Passei as mãos sobre os bolsos ainda com a mesma sensação, e não me faltava nada.
Permaneci com a mesma sensação, não me faltava nada, tudo estava lá carteira, chaves, celular, bip. Estava tudo certinho.
Olhei da varanda do meu apartamento recém-reformado, no 2º andar, o silêncio pairava entre os meus novos móveis, levei a mão à cabeça e pensei: que droga de sensação é essa?
Andei até minha escrivaninha no meu novo escritório, e imaginei que a sensação de ausência fosse do meu apartamento antes da reforma, mas não era isso. Dei uma tapa em uma pilha de papéis e pensei: só trabalho!
Com a mesma sensação e sem saber de que, dei uma volta sobre a minha grande sala de estar, sem fotos de família na estante, sem recados na secretária, na agenda somente trabalho. Retornei a varanda, olhei novamente para cima, colocando a culpa na poluição pela falta de beleza no céu, desviei o olhar para um casal que andava agarrado pela rua e sorrindo exageradamente, apontando para o seu. O que poderiam estar vendo em um céu poluído e com poucas estrelas que os deixasse tão felizes?
Pararam em frente ao meu prédio. O rapaz apontara para um ponto na imensidão do céu, enquanto ela hipnotizada pelo dedo estendido, ouvira atentamente o que seu amor lhe dissera, abaixando o braço e voltando-se para sua amada, o rapaz recebera um beijo apaixonado seguido de um forte abraço.
Seria esse rapaz mágico?
Pensei: como uma mulher poderia ficar feliz em situação de pedestre, em pleno sábado à noite, com um homem que não poderia levá-la a um local digno de um encontro amoroso? Indaguei.
E permaneci com minhas indagações. Ele não sabe o que é conquistar uma mulher!
Pensei que poderia ensiná-lo, afinal estudei nas melhores escolas do mundo!
Sou um empresário bem sucedido e muito rico!
Enquanto falava com meus botões, o casal se foi. E mais uma vez estava eu sozinho.
Voltei a minha sala e sentei em meu novo sofá.
Coloquei os meus cotovelos sobre os joelhos, e inclinei a cabeça sobre as mãos e simplesmente me dei conta das bobagens que acabara de dizer.
Como poderia considerar-me tão inteligente e romântico, se consegui afastar todos de mim. Por não confiar em ninguém, não tinha pessoas próximas, sempre vivi na loucura de achar que todos se interessavam apenas pelo meu dinheiro e não se importavam comigo de verdade.
Dei-me conta de que não lembrava o nome de minha última namorada, e não sabia maias os telefones dos meus antigos amigos. Dediquei-me tanto ao trabalho e não constitui uma família.
Indaguei: pra quem deixar tudo que conquistei?
Quem dará continuidade ao meu trabalho. Nunca fiz caridade, não tinha tempo para isso. Nunca fui visitar meus avós, eles moravam muito longe. Já com a calça úmida por minhas lágrimas, percebi tudo que não fiz e tudo que me faltava.
Nunca tivera alguém que me amasse e me beijasse depois de conquistar uma grande conta, ou depois de uma frase de amor.
Levantei-me um novo homem ao lembrar de uma frase de uma das poucas músicas que ouvi em minha vida, nunca gostei de ouvir música acho que tira a minha atenção, a música dizia: "sem amor eu nada seria." , como nada sou.
PESSOAS SÃO PESSOAS
Todas as pessoas são pessoas
Muda um pouco por fora
Cor, tamanho, largura, moldura
Mas são pessoas
Cromossomos anexos
Processo iniciado
Instintos à flor da pele
Movidos por algum razão
Mas são pessoas...
Mentem, agridem, matam, fingem,
Pensam?
No topo da pirâmide da cadeia e de pé
Pisam em outros seres
E são pessoas
A razão que rege
Destrói um mundo de instintos
Racionalizam atos
Intuem as conseqüências
Ah! Mas são pessoas
Neurônios que destruíram Hiroxima
Não consomem a fome
Prazeres carnais, doenças semeadas
Glicose gasta sem cura
Mas são pessoas
Ecossistemas destruídos
Florestas exploradas, gritam sua dor
Camada ferida, atmosfera reduzida
Água. Até quando?
São as pessoas
Mata a quem nada faz
A quem sempre vive em paz
"Não-bípedes" inoscentes em harmonia
Mas até quando?
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